8min de leitura

Pesquisa aponta quatro tipos do consumidor do futuro e todos estão ligados à reconexão consigo e com o planeta

"O consumidor do futuro é o resultado do ser humano do agora". A frase é de Amanda Dragone, criativa que trabalha com comunicação visual, mundo digital, investidas no universo da moda e, nos últimos dois anos, trocou a correria urbana pelo contato com a natureza, vida simples, experiências terapêuticas, está construindo sua própria casa, administra um airbnb em Itacaré e questiona com frequência sua relação com o consumo. Entender e conquistar pessoas como Amanda é o atual desafio de marcas e negócios. "Precisamos manter vivos os questionamentos que vão nos ajudar a ampliar a consciência sobre o sistema no qual estamos inseridos e de que forma ele lucra sobre as nossas fragilidades. Além de buscar clareza sobre os nossos gostos, corpo e objetivos para fazer escolhas coerentes e assertivas", destaca a nossa personagem. Depois de dez anos olhando para essa relação com as coisas e com o consumo, um critério básico segue com ela: "Sempre avalio se o que eu preciso/quero tem espaço no meu estilo de vida, corpo ou casa. Então, na hora de escolher algo, busco visualizar como e onde irei usar. Se for um quadro, em qual parede irei pendurá-lo? Se for uma roupa, com quais outras conseguirei combiná-la?", comenta. Novo Consumidor Este é um exemplo do novo consumidor e para entender o cenário, times como o WGSN Insight trabalham com afinco para clarear os perfis do consumidor do futuro, como acabou de divulgar com os resultados do White Paper anual, no qual aponta quatro grupos que merecem atenção especial até 2024: reguladores, conectores, construtores de memórias e neo-sensorialistas. Com um detalhe importante: o fio que une essas quatro categorias sustenta a busca pelo realinhamento consigo mesmo, com suas vidas e com o planeta. Percebeu a coerência com o depoimento de Amanda? Para contextualizar os perfis é preciso saber que os reguladores são aqueles que diante de mudanças e incertezas prezam por consistências. Eles preferem, por exemplo, o comércio sem contato para manter o controle e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Já os conectores estão na contramão da cultura da pressa e querem reeditar as regras do empreendedorismo e do compartilhamento, através de compras coletivas, investimentos em serviços por assinatura e pela troca de seus empregos por uma nova perspectiva de sucesso. No grupo dos construtores de memórias estão aqueles que focam no momento presente, simplificam a vida e investem na abundância do tempo, trocam perfeição, culpa e remorsos por leveza, relacionamentos familiares e uma vida mais editada, com pinceladas de memórias afetivas do passado. Os neo-sensorialistas, por sua vez, amam a tecnologia e querem unir o melhor entre a realidade virtual e a vida real. Querem pagar um jantar presencial com criptomoeda ou investir em NFT para adquirir uma obra de arte. Fazem parte dos 93% das pessoas que, de acordo com pesquisa da Mastercard, vão considerar usar um novo método de pagamento, como criptomoeda, biometria ou pagamento sem contato. Ressignificar a Vida O cotidiano digitalizado e a superexposição às telas levou a uma sobrecarga sensorial, nos últimos tempos. Ou seja, o cérebro humano recebe dos cinco sentidos uma quantidade de estímulos maior do que é capaz de processar. Além disso, durante a pandemia, a busca por produtividade a todo custo gerou índices recorde de burnout e síndromes diversas. O ser humano está cansado, daí a necessidade desse realinhamento, de respiros e de equilibro. O ideal é não esperar se instalar uma situação crítica, mas a exemplo de Amanda Dragone, repensar consumo, propósito e valores a tempo de fazer transições mais tranquilas, quando possível. E já tem muita gente fazendo isso. Hoje é fácil perceber uma valorização maior de estilos de vida que envolvem minimalismo, slow living, consumo com mais propósito, rituais de detox digital e de slow-technology com a redução do uso de eletrônicos. Confiança do Consumidor Para a consultora de branding com alma, Maria Brasil, fundadora da Essence Branding, já são dados de pesquisas o quanto a confiança é um fator que direciona o consumidor a escolher uma marca ou produto. Com essas novas demandas, isso fica ainda mais latente. "Antigamente se falava muito sobre o amor à marca, ter fãs da marca, mas hoje em dia, em tempos de incertezas, falamos sobre confiança. A pandemia deixou as pessoas muito inseguras, na saúde pública, na economia e em várias esferas da vida", frisa Maria. Em sua opinião, para encantar o consumidor, as marcas precisam fazer aquilo que pregam. Com os novos hábitos, o e-commerce e o consumo digital expandiram e ganharam força, gerando mais concorrência no mercado. Este cenário, como destaca Maria Brasil, é ainda mais desafiador para que as marcas demonstrem sua coerência e gerem confiança também no ambiente digital, usando suas ferramentas de comunicação online, redes sociais e conteúdo, para estabelecer relação na era do low touch economy (economia do pouco contato). "Esse é um diálogo muito profundo que a gente precisa começar a ter enquanto comunicadores, marcas e produtores de conteúdo", enfatiza. Por outro lado, para criar a consciência da compra, levando em consideração qualidade, sustentabilidade e durabilidade de produtos, o consumidor também precisa fazer a curadoria entre as marcas para observar com quais narrativas ele se conecta. É mais: como recomenda Maria Brasil, "se aprofundar nessas narrativas", para conhecer iniciativas e os projetos, e perceber seu embasamento. "É buscar entender quais as marcas em que a gente se inspira e como a gente consegue usar o nosso poder de compra para valorizar essas marcas, que produzem não só conteúdo, mas ações e práticas alinhadas com o que a gente acredita". A Gefferson Vila Nova Label é um exemplo de que as marcas, independente do seu porte, podem ser protagonistas. (Foto: Divulgação) Gefferson Vila Nova No ano de 2013, quando pouco se falava sobre consumo consciente, o criador baiano Gefferson Vila Nova já olhava para o futuro e criou a Gefferson Vila Nova Label conectada com os pilares da sustentabilidade, upcycling e consciência de valorização do ser humano. "Acreditamos que dentro desse guarda-chuva, que é o design de moda sustentável, a marca passa longe do só emendar retalhos, nós respeitamos os nossos parceiros e colaboradores, mulheres que muitas vezes são chefes de família e que têm seu trabalho desvalorizado", declara. Para Gefferson, o sucesso de um negócio não está apenas em conquistar o comprador, mas é algo gerado pelo DNA do trabalho. Ao contratar o serviço de uma costureira, por exemplo, a primeira coisa que ele enfatiza é que sem ela não existe indústria de confecção e que o empresário não dá emprego porque ama empregar, ele precisa da mão de obra dela, pois ela dá lucro e faz a fortuna dele existir. "A autoestima é fundamental dentro de um setor que preza pela precarização das condições de trabalho dessas mulheres e homens, em sua maioria negra e racializados", explica. Excelência O designer tem recebido destaque nacional pela beleza e qualidade de suas coleções, mas em cada peça produzida existe um manifesto desses valores. Os resultados são feitos da sua criatividade, consciência social e treinamento da mão-de-obra para a excelência. "Minha marca existe porque eu penso um produto com design e qualidade e pago por essa mão-de-obra qualificada, e sabe o que acontece? Meu cliente tem consciência disso e paga por tudo isso. Além do discurso disruptivo que as pessoas vendem nas redes sociais, a minha marca tem a oferecer produto de qualidade e entendemos que isso não se dá só no campo das ideias. E meu maior parceiro (cliente) banca tudo isso, sabe e apoia. Comprem dos pequenos, pesquisem, não acreditem em tudo que a internet vende como sustentável", alerta. Estrutura Enxuta Se o consumidor instiga as marcas a criarem de uma nova maneira, a Gefferson Vila Nova Label é um exemplo de que as marcas, independente do seu porte, podem ser protagonistas e, também, formam em torno delas o perfil ideal de consumidor. Não são grandes estruturas de produção e vendas que garantem ao público um produto coerente e honesto. No caso de Gefferson, a estrutura é enxuta. Tem um ateliê onde toda coleção é desenvolvida, modelagens, prototipagem e pilotagem e, na maioria das vezes, a produção. Ele assume várias tarefas e não abre mão valores da marca. A produção é feita por prestadores de serviços, costureiras e cortadores, que em alguns momentos do crescimento da demanda são contratados. Este conteúdo é uma realização do CORREIO, com patrocínio da Unipar, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio da Fecomércio, Hospital Santa Izabel, AJL Locadora, Comdados e Jotagê. O Estúdio Correio produz conteúdo sob medida para marcas, em diferentes plataformas
0 comentários

Deixe seu comentário