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O gestor de viagens corporativas que ninguém mais consegue ignorar

Sumário

  1. A mesa que o gestor de viagens sempre quis
  2. De resolvedor de embarque a arquiteto de estratégia
  3. O que os dados de 2026 confirmam sobre essa mudança
  4. O que a IA pode fazer, e o que só o humano entrega
  5. A conta que acompanha o protagonismo
  6. O mercado que cresce enquanto o cargo se complica
  7. O que muda quando esse profissional para de ser operacional

A mesa que o gestor de viagens sempre quis

Há um pedido recorrente que sobe dos departamentos de travel management nas empresas brasileiras há pelo menos uma década: ser levado a sério como função estratégica, não apenas como área de suporte que resolve embarque e negocia diária de hotel. Em 2026, esse pedido foi atendido — só que com um preço que ninguém antecipou.

O gestor de viagens corporativas ganhou protagonismo. O mercado cresceu, as responsabilidades se expandiram, e a liderança finalmente passou a ouvir o que esse profissional tem a dizer sobre risco, custo e cultura organizacional. O problema é que o cenário que entregou esse reconhecimento é também o mais complexo dos últimos anos: instabilidade geopolítica, confiança do setor em queda, pressão de compliance crescente e uma base de viajantes que exige mais do que a política escrita consegue oferecer.

O assento à mesa chegou. A conta veio junto.

De resolvedor de embarque a arquiteto de estratégia

Quem acompanha o travel management de perto sabe que a mudança de posicionamento da função não é de agora, mas 2026 acelerou a transição de um jeito que não tem como ignorar. As gestoras ouvidas pelo Anuário PANROTAS de Viagens Corporativas e Eventos 2026¹ descrevem em termos precisos o que mudou.

Michele Moraes, da Hypera, resume o movimento: "O que mudou foi o tipo de autonomia. Deixei de ter uma visão mais focada dentro da minha área e passei a compartilhar melhor os dados do departamento de gestão para outras áreas que tomam decisão. Hoje, é menos feeling e mais o histórico."

Viviane Parrini de Moraes, gestora de Viagens da Arcos Dourados, vai além: "O papel do gestor hoje é arquitetar a estratégia de viagens com investimento, atrelando também receita, cultura e inovação. Por isso, vejo grande necessidade de trazer ROI tanto para as viagens corporativas quanto para as de eventos."

Não é mais sobre ter o menor valor na passagem. É sobre saber o que o spend de viagens representa para o crescimento da empresa, quais rotas suportam quais projetos, o que o volume de deslocamentos revela sobre o ritmo operacional do negócio, e como a política de viagem impacta a retenção de quem viaja com frequência.

O que os dados de 2026 confirmam sobre essa mudança

A percepção das gestoras encontra respaldo nos números. A GBTA apurou, em pesquisa de 2026², que sete em cada dez compradores de viagem corporativa (70%) reconhecem que a função de gestão de viagens se torna mais importante justamente em períodos de disrupção, com responsabilidades cada vez mais próximas da liderança e da gestão de risco da empresa.

No mesmo período, a associação registrou uma queda expressiva na confiança do setor: o otimismo de gestores de viagem caiu de 59% para 41% entre janeiro e abril de 2026, enquanto o pessimismo quase triplicou. Mais viagens acontecendo, mas com mais complexidade operacional, custo percebido mais alto e decisões mais arriscadas a tomar.

É exatamente nesse cenário que o papel estratégico do gestor de viagens se consolida — não por mérito isolado da categoria, mas porque a empresa simplesmente não pode se dar ao luxo de deixar esse processo no piloto automático.

O que a IA pode fazer — e o que só o humano entrega

Uma das perguntas mais frequentes sobre travel management em 2026 é se a automação e a inteligência artificial estão tornando a função dispensável. A resposta das gestoras ouvidas pelo Anuário PANROTAS¹ é uniforme e direta: não.

Evelyn Haddad, secretária executiva da HT Micron que gerencia viagens de estrangeiros e C-Level, foi objetiva: "A inteligência artificial não acabará com nossa profissão. É preciso um olhar humano para analisar as próprias relações humanas, como de fornecedores e parceiros."

O ponto mais preciso que ela levanta não é sobre volume de trabalho ou eficiência de processo. É sobre o momento em que a tecnologia falha, ou simplesmente não é suficiente. "Em caso de problemas, de overbooking, algo que o viajante não se sinta amparado, é essencial a pessoa ter um meio de contato para falar com um humano. Para se sentir acolhida. É sobre dar conforto e trazer segurança quando o cliente interno se sente desamparado."

A automação faz bem o trabalho de rotina. Reserva dentro da política, alertas de preço, relatórios de spend. O que ela não entrega é julgamento contextual — saber quando a regra precisa ser dobrada para que a pessoa do outro lado não seja prejudicada por algo que a política não previu. Esse julgamento é o que distingue um gestor de viagens experiente de um software de reserva bem configurado.

A conta que acompanha o protagonismo

Se a função ganhou visibilidade estratégica, ela também ganhou uma lista de atribuições que seria impensável há cinco anos. Viviane, da Arcos Dourados, cita o quanto o duty of care se transformou: "Hoje é fundamental ter uma padronização de avaliação de riscos pré-viagem, monitoramento em trânsito e resposta a incidente pós-viagem."

A isso se somam saúde mental do viajante, bleisure, critérios ESG, governança de dados, integração com RH e finanças, e ainda a gestão de uma base de fornecedores que precisa ser curada com critério. Porque, como Viviane descreve, a escolha de parceiro de viagem não é intuitiva — é analítica. "Tenho por hábito olhar meu BI, entender se tenho volume para a cidade em questão para saber se haverá demanda para o hotel que estamos em negociação. Seria improdutivo para ambos os lados caso não haja esse volume."

O perfil exigido agora cruza habilidades que raramente estão no mesmo currículo: analítica de dados, relacionamento com fornecedor, sensibilidade cultural, gestão de risco, comunicação executiva, e capacidade de defender gasto de viagem em reunião de CFO sem perder o fio da experiência do viajante.

O mercado que cresce enquanto o cargo se complica

No Brasil, o contexto de crescimento não alivia a pressão — ele a amplifica. Com R$ 7,18 bilhões movimentados pelas TMCs associadas à Abracorp só no primeiro semestre de 2026³ e projeção de R$ 15 bilhões para o ano completo, o spend de viagens corporativas representa um volume que qualquer área de compras levaria a sério. Só que historicamente ele ficou em segundo plano.

O gestor de viagens que entra em 2026 com esse número na mão e sabe apresentar o que aquele gasto representa em termos de receita suportada, risco gerenciado e retenção de talentos tem um argumento novo. Não é mais um pleito por reconhecimento — é uma conta objetiva que a liderança não pode ignorar.

O que muda quando esse profissional para de ser operacional

O que as gestoras descrevem, e o que os dados confirmam, não é uma mudança de título ou de organograma. É uma mudança de como o profissional de travel management se vê dentro da empresa — e de como a empresa passa a vê-lo.

Michele Moraes resume bem: "O que antigamente era regular uma viagem ou ter o menor valor, agora é ser mais estratégico, mais analítico, usar os dados disponíveis como bússola transversal."

Quando o gestor de viagens para de ser a pessoa que resolve o embarque e passa a ser quem lê o BI antes de qualquer negociação, quem apresenta ROI de eventos para o board, quem faz a ponte entre política de viagem e saúde do viajante, o processo muda de caráter. Deixa de ser suporte e passa a ser parte da conversa sobre como a empresa funciona quando precisa se mover.

O assento à mesa que a categoria buscava por anos chegou. O que 2026 está testando é se quem senta nele está preparado para a conversa que vem depois.


Referências

  1. Beatrice Teizen. Além do embarque: qual o papel estratégico do gestor de viagens em 2026? Anuário PANROTAS de Viagens Corporativas e Eventos 2026, fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/gestao-de-viagens/2026/02/alem-do-embarque-qual-o-papel-estrategico-do-gestor-de-viagens-em-2026_226019.html
  2. Global Business Travel Association (GBTA). Global Business Travel Continues but Confidence Drops Sharply as Conflict, Costs and Complexity Reshape the 2026 Outlook, pesquisa de abril de 2026. Disponível em: https://gbta.org/global-business-travel-continues-but-confidence-drops-sharply-as-conflict-costs-and-complexity-reshape-the-2026-outlook/
  3. Abracorp, dados do 1º semestre de 2026, via Panrotas. TMCs associadas à Abracorp faturam mais de R$ 7 bilhões no 1° semestre (2026). Disponível em: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/pesquisas-e-estatisticas/2026/07/tmcs-associadas-a-abracorp-faturam-mais-de-r-7-bilhoes-no-primeiro-semestre_230443.html
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