Nova tecnologia usa vento para mover navio cargueiro
Navio Pyxis Ocean está na baía de Paranaguá, no Paraná, e usa velas ‘WindWings’. Equipamentos pesam cerca de 400 toneladas. Técnica promete reduzir emissão de carbono por meio da eficiência energética. Tecnologia inédita usa vento para mover navio cargueiro e pode inspirar 'futuro verde' Em 2023, o passado e o futuro parecem se cruzar em alto mar na busca pela diminuição da emissão de carbono. O navio graneleiro Pyxis Ocean ganhou recentemente espécies de velas, apelidadas internacionalmente como "WindWings". Assista acima. O Pyxis Ocean está na baía de Paranaguá, no litoral do Paraná, se preparando para atracar. Na sexta-feira (22), o g1 entrou no navio e acompanhou de perto uma simulação das WindWings em funcionamento. Compartilhe no WhatsApp Compartilhe no Telegram O que antes eram chamadas de velas, aos poucos estão sendo conhecidas como "asas". As duas peças que ajudam a mover no navio pesam, juntas, cerca de 400 toneladas – já a embarcação pesa quase 80 mil toneladas. A nova tecnologia permite que a embarcação cruze oceanos consumindo menos combustível e emita menos poluentes, mas com a mesma lógica de navegabilidade das antigas caravelas usadas na época das Grandes Navegações. As peças ficam posicionadas na lateral da embarcação e são utilizadas mediante condições específicas – apesar de precisar do vento para funcionar, se ventar demais, o navio pode correr perigo. Leia mais sobre as 'velas' abaixo Relembre: Navio cargueiro 'movido a vento' chega ao Paraná Navio cargueiro 'movido a vento' estreia em viagem ao Brasil Pyxis Ocean, da Mitsubishi Corporation e a serviço da Cargill, pesa cerca de 80 mil toneladas Giuliano Gomes/PR Press "As velas na verdade, elas ganham um impulso com a força do vento. O navio tem maquinário normal, é um navio comum, mas com esse sistema ele consegue ganhar impulso, esse rastro aerodinâmico e com isso você ganha velocidade e reduz o consumo de combustível", explicou Raul Alves Pacheco, gerente nacional de agenciamento marítimo da Cargill. A multinacional Cargill, empresa que produz, processa e transporta alimentos, é quem opera o Pyxis Ocean. A nova tecnologia utilizada no navio foi desenvolvida a partir de uma parceria da empresa com a BAR Technologies, Mitsubishi Corporation, Yara Marine Technologies e com a União Europeia. Segundo o presidente da Cargill, Paulo Sousa, a tecnologia foi desenvolvida ao longo de seis anos de pesquisas. Como funcionam as 'asas' Pyxis Ocean, da Mitsubishi Corporation e a serviço da Cargill, é o primeiro navio a ser equipado com WindWings Giuliano Gomes/PR Press Se o navio estiver parado, as asas normalmente ficam abaixadas. De acordo com a Cargill, uma asa demora cerca de 20 minutos para ser "içada" e entrar em funcionamento. Na parte de dentro, as WindWings têm um "esqueleto" de metal. A parte de fora, projetada para receber o impacto do vento, é de fibra de vidro. Diferentemente das antigas embarcações, em que a tripulação precisava ficar no convés do navio usando cordas para posicionar as velas, as WindWings se movem automaticamente. Um software controlado pelo capitão do navio permite que as asas identifiquem a direção do vento e se posicionem da melhor forma para potencializar a navegabilidade. Os equipamentos podem girar até 360º. Software ajuda capitão do navio a controlar WindWings Giuliano Gomes/PR Press O mecanismo todo, inclusive, funciona de forma mais simples do que aparenta. A função do equipamento não é, por exemplo, armazenar energia eólica ou impulsionar o motor do navio. Na prática, o efeito das asas ao navio é o mesmo que acelerar o carro em uma descida e depois deixar ele trafegar sozinho em ponto morto. "Funciona como um veleiro normal. Não há armazenamento de energia. Com a força do vento ele consegue reduzir a rotação da máquina, então ele vai consumir menos energia e aí por isso ele consegue ter essa vantagem, impulsionado pelo vento", detalhou Pacheco. O gerente de agenciamento marítimo detalhou que, apesar do vento ser a principal ferramenta para o funcionamento das velas, se ele estive forte demais, pode por a embarcação em risco. Por isso, o capitão do navio precisa monitorar a todo momento a força de ventania. Se passar de 74 quilômetros por hora, há risco. Os equipamentos podem ser içados e abaixados a qualquer momento, mesmo se o navio estiver em deslocamento. "Até 40 nós [de vento] o navio consegue ficar com o sistema em pé. Passou disso, melhor abaixar pra evitar qualquer problema. Se o vento for muito forte, continua a viagem só com o combustível normal." Levante das velas do Pyxis Ocean leva cerca de 20 minutos, segundo Cargill Giuliano Gomes/PR Press De acordo com a Cargill, o navio recebeu as peças em Xangai. Para a instalação foi necessário realizar uma compensação na estrutura do navio para que ele pudesse manter o equilíbrio. Outra mudança necessária para o uso das peças foi a redução de parte da capacidade de armazenamento da embarcação. Veja números e curiosidades do Pyxis Ocean: Nova tecnologia usa vento para mover navio cargueiro e pode inspirar 'futuro verde' no mar; conheça Arte g1 Data da criação do navio: 2017; Data de instalação das velas: 2023; Quantas 'velas': duas; Peso de cada vela: 200 toneladas; Velocidade com as velas abaixadas: 22 km/h Velocidade com as velas levantadas: 29 km/h Material das velas: metal (interno) e fibra de vidro (externo); Altura das velas: 37,5 metros; Tempo para subir a vela: cerca de 20 minutos Peso do navio: 79 mil toneladas Comprimento: 229 metros Largura: 23,26 metros Capacidade de armazenamento: entre 75 e 79 mil toneladas Estreia em Paranaguá Paranaguá é a primeira cidade do Brasil a receber a embarcação desde que ela foi equipada com as asas. O navio chegou sem carga. Depois da instalação da tecnologia, o navio foi até Singapura para abastecer. Em seguida, a embarcação começou uma viagem de 30 dias até chegar ao estado paranaense, em 15 de setembro. A expectativa da Cargill é que o barco atraque no domingo (24) para carregar mais de 60 mil toneladas de farelo de soja. Segundo a Cargill, o Brasil foi escolhido para a primeira viagem devido a força do país na produção global de alimentos como soja, milho e outras commodities. No mar, o navio não terá rota única, conforme a empresa. Pyxis Ocean Giuliano Gomes/PR Press A multinacional não quis revelar quanto investiu no projeto das WindWings, mas disse que espera uma economia de combustível de 13% a 18%, inicialmente. "Como é a primeira viagem eles ainda estão calculando [a economia]. Tem um pessoal da engenharia que está fazendo os cálculos, então a gente ainda não tem o número. Mas a expectativa é que dá para reduzir de 3,6 a 4 toneladas de combustível, isso operando em boas condições, vento favorável e um dia inteiro de operação." Asas são o começo, mas ainda não garantem descarbonização Atualmente, embarcações como o Pyxis Oceans utilizam na locomoção o chamado óleo pesado, combustível para grandes motores e que geram grandes quantidades de carbono. Para engenheiro civil Wilson de Aguiar Beninca, professor do curso de Engenharia de Energia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o atendimento da demanda de combustível para descarbonização do transporte marítimo vai muito além da geração eólica devido a diversidade de ambientes da navegação. "A energia eólica tem grande potencial a ser explorado no Brasil, tanto em áreas continentais e também em alto mar. Mas quando se trata de geração de energia, a mesma regra aplicada por investidores deve ser seguida, e a palavra chave é diversificação da matriz, isso para garantir o atendimento da demanda de energia na diversidade de cenários possíveis". O presidente da Cargill Paulo Sousa explicou que as asas demonstram potencial de descarbonização, mas para ele, indicam apenas o início de um caminho que está sendo traçado no setor marítimo. "O objetivo do setor marítimo é zerar a emissão de carbono em 2050. Nós, como empresa, temos objetivo de 30% de redução na nossa cadeia de suprimentos até 2030. Sistema de vela, de asa, vai ser a solução final para a questão de emissão? Não vai. Agora, quando vier a substituição do óleo pesado por combustível renovável para os navios, aí sim que a tecnologia começa a ajudar bastante." VÍDEOS: mais assistidos do g1 Paraná ? Leia mais notícias em g1 Paraná. ? Participe da comunidade do g1 Paraná no WhatsApp e no Telegram.
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