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Investimentos digitais pela preservação da Amazônia ganham adeptos, mas não salvam a mata

Em seu site, a Moss, uma das mais atuantes negociadoras destes títulos, os "NFTs da Amazônia" (de non-fungible tokens, ou "tokens não fungíveis") apresenta seu produto a potenciais interessados: "Seja dono do seu pedaço de terra na Amazônia. Monitore digitalmente e ajude a manter a floresta em pé". O apelo funciona bem. Em meados de fevereiro, um trecho de 111 hectares da floresta situado no sul do Pará, cada hectare representado por meio de um NFT, foi negociado a R$ 1,5 milhão. Para a venda, o naco de Amazônia às margens do Rio São Benedito, e já cercado por áreas desmatadas para agricultura, foi repartido em 150 pedaços, criptografados e depois reagrupados em três séries de 50 NFTs. Cada uma das duas primeiras séries foi vendida em menos de duas horas, segundo o fundador da Moss, Luis Felipe Adaime. A terceira seguiu o mesmo compasso, mas restaram 39 hectares, que estão se alongando na negociação com um único comprador, que quer adquirir todas. De onde estiver, o novo proprietário dos pedaços de mata pode conferir se ela ainda está de pé, por meio de imagens de satélite atualizadas semanalmente. Assim, acompanha o retorno de seu investimento enquanto acredita manter o seu pedaço de floresta intacto. Mas não é bem assim que as coisas funcionam na mata, segundo Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (iCS): — Essas empresas vendem a preservação da Amazônia, mas entregam algo que não necessariamente garante a reversão do desmatamento em escala, que é o que a gente precisa. A gente não precisa de preservação de pedacinhos da Amazônia — diz. Pinheiro explica que, devido a seu solo pobre, a região depende da sua integridade, de seu tamanho, para se manter viva. Se não, os detentores desses NFTs correm o risco de um dia abrir a foto de satélite e descobrir que o lote em que está o seu terreno se tornou um oásis verde cercado de terra desmatada por todos os lados. — Essas iniciativas são positivas, mas têm que ser ligadas a um projeto de desenvolvimento sustentável da região — afirma o coordenador do iCS. Segundo ele, se ajudarem a preencher espaços vulneráveis próximos a áreas protegidas, as NFTs podem, sim, ajudar a conter a derrubada da floresta. E essa coordenação precisa acontecer logo, sob pena de frustrar os investidores que disputam os NFTs acreditando terem feito diferença na preservação da floresta. O mecanismo, explica Adaime, nada mais é do que uma maneira digital segura de permitir que pessoas engajadas usem sua poupança para trabalhar pela causa em que acreditam. Os NFTs não oferecem, ao menos ainda, rentabilidade, a não ser pela eventual valorização patrimonial da terra, que tende a ser lenta e gradual. Para colher os frutos, ou dividendos do investimento, é necessário ainda certificar a área conforme critérios internacionais, para então gerar créditos de carbono. O processo pode custar até US$ 4 milhões, para uma área equivalente à da capital paulista, segundo o presidente da Moss, que tem planos de coordenar o trabalho para os lotes vendidos. Para que a preservação prevaleça, é preciso inverter a crença arraigada nas atividades que abrem caminho na mata, segundo a qual uma árvore vale mais derrubada que de pé. E mesmo que todas as áreas comprometidas com a preservação sejam certificadas e gerem créditos de carbono, ainda será insuficiente para barrar o avanço sobre a Amazônia. Mecanismos como o NFT só são possíveis em regiões submetidas à legislação florestal, e não é por esse flanco que o desmatamento ataca, segundo Marcello Battisti, consultor em ESG (governança ambiental, social e corporativa). — A grande maioria de nossas emissões de carbono na atmosfera é causada por atividades ilegais de remoção de florestas em áreas públicas — diz ele, que vê na grilagem de terras o cerne do problema. Em outros biomas mais degradados, como a Mata Atlântica, soluções mais recentes também procuram aliar preservação e geração de receita. É o caso do trabalho realizado pela Preservaland, que busca construir um corredor contínuo de preservação entre a Serra do Mar e a Serra da Bocaina, no Sudeste. Segundo Guilherme Santana, um dos sócios da empresa, sediada nos EUA, o intuito é criar objetivos gradativamente mais sofisticados, mesmo que ainda não seja possível estimar seu valor monetário. É o caso do corredor pretendido, que almeja preservar a biodiversidade da região, possível somente em longos trechos de mata, sem interrupções. — O yield (rentabilidade) derivado disso virá com a regulamentação do mercado de carbono, de serviços ambientais. Só que esse hoje não é o ganho principal, o ganho principal é de impacto ambiental.
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