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‘Comércio justo’ é estratégia para engajar produtores na Amazônia

Para as empresas que oferecem em seu portfólio produtos feitos com matérias-primas do bioma amazônico, extraídas ou produzidas com técnicas sustentáveis, o engajamento com fornecedores e o monitoramento de perto da produção é vital. E a estratégia para conquistar esse engajamento passa por valorizar o trabalho das pessoas no campo e remunerá-las para que protejam a natureza. A gigante de cosméticos Natura &Co, a fabricante de tênis Veja e a varejista de produtos com açaí Oakberry estão, com erros e acertos, trilhando um caminho nesse sentido. Na base das práticas dessas três companhias estão princípios do chamado "comércio justo", uma alternativa ao jeito convencional de fazer negócios. Uma das práticas é diminuir o número de intermediários e fazer parcerias diretas com os fornecedores, facilitando, dessa forma, a aplicação de conceitos como salário justo (ou digno) a quem produz, a garantia de práticas sustentáveis no meio ambiente e o respeito aos direitos das comunidades envolvidas. No caso da francesa Veja, conhecida no Brasil como Vert, ela já nasceu baseada no comércio justo. Toda a borracha (Granulado Escuro Brasileiro, o GEB) que dá forma aos mais de 4 milhões de pares produzidos por ano pela companhia vem principalmente do Acre e de outros quatro Estados amazônicos. O trabalho no local começou em 2003, quando os franceses Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion buscavam fornecedores que tivessem compromisso com o comércio justo e acabaram conhecendo o trabalho de Tristan Lecomte na AlterEco, empresa que desenvolve cadeias com esses princípios e já trabalhava com cooperativas no Norte do país. Hoje são mais de 2 mil pequenas propriedades fornecedoras. François-Ghislain Morillion, cofundador, conta que a empresa desenvolveu um protocolo de trabalho para a borracha acordado com os trabalhadores e cooperativas, envolvendo recompensa para quem produz conservando a floresta. O monitoramento do desmatamento é acompanhado via satélite. Quem segue a metodologia recebe o valor médio praticado pelo mercado, de R$ 2,50 por quilo da matéria-prima, mais bônus de R$ 8,50 por quilo pela proteção da floresta e R$ 1,00 pela qualidade da borracha. Além disso, as cooperativas podem levar R$ 3,50 por orquestrar tudo. Com isso, o preço final pode chegar a R$ 15,50, seis vezes mais do que a prática da indústria. "Isso é possível porque priorizamos em nossos custos pagar bem os fornecedores. Conseguimos isso porque não investimos em marketing. Não temos verba publicitária", diz Morillion. Segundo ele, cerca de 70% do valor final do produto ao consumidor de tênis de grandes marcas vão para propaganda e comunicação e só 30% para matérias-primas e produção. O empresário diz que outra prática para engajar os produtores é firmar contratos longos — os vigentes hoje vencem em 2026 — e não ter preço fixo no documento, para ter margem para reajustar acima da inflação oficial, se necessário. "Para os mais pobres, a inflação é sempre maior. Queremos garantir que eles tenham uma vida melhor e segurança econômica." Por ano são cerca de 560 mil quilos de GEB (borracha). Para chegar a um preço justo, diz Morillion, a companhia fez uma parceria com a Universidade Federal do Acre (UFAC) para calcular o valor ideal para a cadeia da borracha no local, contemplando não apenas horas de trabalho, mas o preço de oportunidade, ou seja, o quanto os produtores merecem receber por não fazer outras atividades econômicas que prejudicariam a floresta. A empresa adaptou o modelo para as cadeias de algodão e couro. Os 83 mil quilos por ano de algodão usados nos calçados são produzidos em vários Estados do Norte e Nordeste e no Peru, enquanto os 550 mil metros quadrados de couro vêm do Uruguai e Rio Grande do Sul. Segundo Morillion, a produção também na Bolívia está nos trâmites finais para começar. As matérias-primas vão para as fábricas brasileiras, como a de processamento de borracha em Sena Madureira (AC), a de fiação e tecelagem de algodão em São Paulo, além de outras duas no Sul e Nordeste. Parte da produção fica no Brasil e outra vai para os centros de distribuição na Europa, EUA e Ásia.
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