Depois de dois anos de expectativa alta em torno da inteligência artificial, o Procurement começa a ter dado concreto sobre onde ela já entrega valor de verdade. Este artigo mapeia os usos que já saíram do piloto para a rotina, e mostra por que isso amplia, em vez de reduzir, o papel estratégico do comprador.
Sumário
- Da expectativa ao dado concreto
- Onde a IA já roda no dia a dia do Procurement
- Sourcing e contratos: o que os agentes já assumem
- O que segue sendo trabalho do comprador
- Como aproveitar esse momento sem virar o processo de cabeça para baixo
- O próximo capítulo é sobre escala
Da expectativa ao dado concreto
Depois de duas ou três temporadas de "IA vai transformar tudo" no discurso de eventos de Procurement, chegou a hora em que a promessa começa a virar dado. Pesquisas recentes do setor mostram menos hype e mais indicação concreta de onde a inteligência artificial já ajuda o comprador no dia a dia, e onde ela ainda está caminhando.
O Estudo de Questões-Chave em Procurement 2026 do The Hackett Group¹ traz um retrato positivo desse avanço: 43% das organizações de Procurement já estão ativamente implantando IA, quase o dobro do ano anterior. Isso não significa escala total: apenas 12% relatam implementação em larga escala, a maioria ainda está em piloto ou em casos de uso pontuais. Mas o movimento de "testar" para "usar de verdade" está claramente acelerando.
Esse é o recorte deste artigo: não repetir a promessa genérica de que "IA vai mudar o Procurement", e sim mostrar, com base em dado de pesquisa recente, o que já está mudando e o que isso significa para quem trabalha com compras no dia a dia.
Onde a IA já roda no dia a dia do Procurement
Segundo o mesmo estudo do Hackett Group¹, o uso atual de IA em Procurement está concentrado em três frentes: gestão de contrato, inteligência de mercado e análise de gasto. Nessas áreas, a IA já atua como apoio direto à decisão, ganhando velocidade e visibilidade sem substituir quem decide.
Uma informação interessante do estudo é que 69% das organizações acessam IA através de funcionalidades já embutidas nas plataformas de Procurement que já usavam, principalmente para processos transacionais. Isso é uma boa notícia para quem não tem orçamento de multinacional para comprar uma solução de IA dedicada: bastante ganho inicial já vem de ativar o que a ferramenta atual oferece, mesmo antes de qualquer investimento adicional.
O estudo também traz um dado sobre pressão de contexto: a carga de trabalho em Procurement deve crescer 8% em 2026, mesmo com quadro de pessoas e orçamento operacional em queda em muitas organizações. É esse cenário, mais do que qualquer discurso de inovação, que empurra a adoção de IA: o time precisa fazer mais com o mesmo tanto de gente.
Sourcing e contratos: o que os agentes já assumem
A camada mais recente dessa conversa é a IA agêntica, que não só sugere, mas executa etapas do processo com mais autonomia. A PwC² publicou uma leitura detalhada sobre o tema, estimando que agentes de IA devem transformar ao menos 75% das atividades de Procurement, com base em trabalho de campo com clientes e modelagem de processo.
O dado mais concreto está no recorte por atividade: na frente de sourcing, a PwC² projeta que agentes podem assumir a liderança em até 25% das atividades atuais e apoiar o time humano em outros 70%. Isso deixa uma fração pequena, mas real, de trabalho que continua inteiramente nas mãos de pessoas, geralmente a parte que envolve negociação de valor estratégico e relação de longo prazo com o fornecedor.
Em termos de produtividade, a mesma PwC² projeta ganho geral de ao menos 30%, chegando a 70% nas tarefas que já rodam de forma majoritariamente conduzida por agente. São números de projeção, não de medição retroativa de mercado inteiro, então vale ler como cenário bem fundamentado, não como fato consumado em toda operação.
O que segue sendo trabalho do comprador
O ponto que aparece nos dois estudos, de formas diferentes, é que a IA redistribui trabalho, não substitui julgamento estratégico. A leitura da PwC² é explícita: nas atividades que se tornam "conduzidas por agente", as pessoas migram para decisão, gestão de relacionamento, supervisão e estratégia. Em outras frentes, forma-se um time híbrido de pessoas e agentes cuidando junto do fluxo, e uma fração pequena de tarefa continua inteiramente humana.
Isso muda o feitio do trabalho do comprador mais do que reduz o tamanho dele. Menos tempo em tarefa repetitiva de triagem, cotação e conferência, mais tempo em leitura de risco, negociação de categoria estratégica e conversa com o lado do negócio que pediu a compra. Um exemplo prático e próximo do meu dia a dia: na gestão de viagem corporativa, que acompanho de perto na Onfly, ferramentas de triagem automática de despesa já cuidam de boa parte da conferência repetitiva, o que libera o time de operações para lidar com a exceção, que é onde o julgamento humano realmente importa.
Como aproveitar esse momento sem virar o processo de cabeça para baixo
O dado do Hackett Group¹ sobre 69% de uso via funcionalidade já embutida na plataforma atual sugere um caminho de entrada mais simples do que muita gente imagina:
- Mapear quais funcionalidades de IA já existem, mas não estão ativadas, nas ferramentas de Procurement que a empresa já usa hoje.
- Priorizar as três frentes onde o uso já é mais maduro no mercado: gestão de contrato, inteligência de mercado e análise de gasto.
- Medir o ganho de tempo em cada frente antes de expandir para sourcing agêntico mais avançado.
- Reservar a fração de trabalho mais estratégica (negociação de valor alto, relação de fornecedor crítico) para decisão humana, mesmo que a ferramenta ofereça automação total ali.
Nenhum desses passos exige reformular o processo inteiro de uma vez. A curva de adoção que aparece nos dois estudos é gradual por natureza, e isso é uma vantagem, não um atraso: dá tempo para aprender com o piloto antes de escalar.
O próximo capítulo é sobre escala
O retrato que emerge da pesquisa recente é de um Procurement em transição real, não mais em fase de expectativa. Passamos de "será que IA funciona aqui" para "onde ela já funciona, e onde ainda precisa de mais maturidade para funcionar melhor". Isso é, em si, um sinal de progresso da função.
O próximo capítulo, segundo os próprios estudos, é sobre escala: sair de piloto isolado para uso sustentado, com governança, gente e processo desenhados junto com a tecnologia. Quem entender esse momento como uma curva de aprendizado, e não como uma corrida contra o tempo, tende a aproveitar melhor cada etapa dela.
(Para quem quiser aprofundar a leitura sobre transformação digital da função de compras, vale acompanhar outros conteúdos já publicados na Procurement Digital sobre o tema.)
Referências
- The Hackett Group, "The Hackett Group® Reports Rapid Progress in Procurement's AI Agenda" (2026 Procurement Key Issues Study), 2026. https://www.businesswire.com/news/home/20260317879383/en/The-Hackett-Group-Reports-Rapid-Progress-in-Procurements-AI-Agenda
- PwC, "How AI agents are transforming procurement: What CPOs should know", 2026. https://www.pwc.com/us/en/tech-effect/ai-analytics/agentic-ai-in-procurement.html
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