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Brasil perdeu a trajetória de crescimento que tinha conquistado, diz diretor da Cepal

Economista com mestrado pela PUC do Rio de Janeiro, Mussi aponta para o que chamou de "indecisão da sociedade brasileira": não distribui a riqueza nem define para onde crescer. "Vamos investir mais em indústria e mais em serviço? Ainda não desenhamos como vamos crescer [...] e como as gerações futuras terão melhores oportunidades do que as atuais", afirma. A Cepal é uma comissão da Organização das Nações Unidas criada para promover as relações econômicas entre os países da América Latina e Caribe e o resto do mundo. O Brasil passou por uma grande recessão em 2015 e 2016. Isso implicou uma revisão da trajetória de desenvolvimento ou crescimento do Brasil. Uma revisão da ação do Estado, dos programas de transferência [de renda], da evolução do emprego, da renda etc. E, consequentemente, nós regredimos em vários indicadores sociais nos quais estávamos evoluindo positivamente desde o início do século. Hoje a situação social brasileira está influenciada por vários aspectos da pandemia, mas isso também decorre do fato de que não crescemos há quase dez anos. Portanto, renda, emprego e a própria mobilidade social têm sido muito dificultada. O Brasil, digamos, perdeu a trajetória de crescimento desde "a grande recessão", com a pandemia e neste mundo pós-pandêmico que estamos vendo. Isso inclui, por exemplo, a elevação da taxa de juros americana, que são as maiores taxas desde 1994. Primeiro, acho que o Brasil parece que perdeu ou tem dificuldade de voltar a crescer. Isso é uma questão da sociedade brasileira. Ou seja, de investir, de expandir, de aumentar a produtividade, ganhar competitividade. Segundo, a sociedade brasileira mostrou que para ela é muito importante a questão da redistribuição de renda. O que nos aconteceu nos primeiros 15 anos desse século. Mas isto tem custos. A ação do Estado. Mas, principalmente, quando o setor privado não investe, quando o setor público não investe...E não há incentivo para que as pessoas, as camadas sociais se realizem, vamos dizer, em termos profissionais, de renda, de emprego…Nos anos 1970 crescer abaixo de cinco por cento era um horror pro Brasil. Tivemos a crise externa, tivemos a possibilidade de voltar a crescer depois do real e especialmente no ciclo de commodities. Mas perdemos essa trajetória. É, [perdeu a trajetória] de uma sociedade que quer crescer, expandir, gerar emprego, renda, fazer a distribuição, gerar novos setores. Investir em ciência e tecnologia. Quer dizer, hoje estamos em um momento em que o setor privado está muito incerto, por causa também da ação do Estado, e o Estado não tem mais aquela liderança em investimento em infraestrutura que teve no passado. Acho que tem a ver com uma certa indecisão da sociedade brasileira que vai além do objetivo de redistribuir, mas também por onde crescer. Vamos investir mais em indústria e mais em serviço? A agricultura respondeu de uma certa forma até muito positivamente. Mas o que o Brasil deseja em termos de oferta, em termos de produtos, de competitividade internacional? Como fazer para administrar sua demanda? Há o papel do Estado, há a necessidade de não gerar desequilíbrios macroeconômicos e há também a ideia de sustentabilidade. Uma sustentabilidade ambiental, econômica, no sentido de que você não pode ter setores eternamente subsidiados ou preferidos, decorrente de renúncia fiscal ou desequilíbrios estruturais - a Previdência, a estrutura de salários do setor público e uma certa eficiência… Por exemplo, na questão ambiental a palavra que eu gostaria muito que o Brasil debatesse é a sua governança dos recursos ambientais. O social tem desde renda, emprego e até aumento de salário, usando o [patamar de] emprego decente da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a mobilidade social, de produtividade para os salários, de uma forma não inflacionária. Essa é a parte econômica. Mas o social também tem, digamos assim, os indicadores clássicos sociais, de saúde, de educação, o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] do Pnud [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento]. E o social também tem a questão distributiva em que entra um pouco a renda e tem a política. E aí entra a questão de uma certa coesão social para resolver os problemas políticos. Ter um certo consenso sobre quais as opções do país ou de como o Estado deve atuar. E de tal forma que mantenha o setor privado incentivado para expandir seus investimentos. E o setor privado é tanto o nacional quanto o externo. Primeiro, temos a questão conjuntural da pandemia, que fez uma revisão de formas de trabalho, das formas de renda. Ela criou um hiato grande entre oferta e demanda e isso reflete um pouco a questão da inflação. E isso é algo mundial. Segundo, nós ainda não desenhamos como podemos crescer, como vamos manter a expansão da perspectiva de que as gerações futuras terão melhores oportunidades do que as gerações atuais. Primeiro, acho que aí entra a questão fiscal. Ou seja, o papel do Estado, que, especialmente aqui no Brasil, é um grande agente econômico. Ele capta sempre um terço via impostos. Gasta cerca de 40% do PIB [Produto Interno Bruto]. O consumo estatal é algo como 20% do PIB. Ele paga juros de 4%, 5% do PIB e tem uma dívida em torno de 80% ou 90% do PIB. E tem uma ação que o Estado brasileiro deixou de fazer, que é investir. Nem o Estado está investindo o básico e nem o setor privado frente às incertezas do Estado… O investidor privado tem sempre este sócio oculto que é o Estado. Ele tem que pagar impostos, ele quer saber se a economia vai crescer para ter demanda e qual vai ser o patamar dos juros que ele vai ter que pagar para financiar seu investimento ou até ver o custo de oportunidade. O Brasil sempre foi muito oito ou oitenta. Então, para mostrar que havia um certo desejo de ter uma trajetória sobre os gastos, criou-se o teto de gastos. Olha, o projeto econômico do ministro [Paulo] Guedes era de um liberalismo que não foi muito bem discutido com a sociedade e com o Congresso. Frente à pandemia, ele teve que atender [as necessidades] em vez de fazer o projeto dele. Não estou dizendo se está certo ou errado, mas que ele tinha uma proposta… Nós estamos com o principal agente da economia [o Estado] em reforma, mas ela não está desenhada ou concluída. As questões de urgência, como a do combustível, ficam como aquele "já que... então, vamos fazer isso". Mas aí a reforma inicial do projeto se torna totalmente difícil de se ver. Acho que há ainda algumas coisas em termos da vulnerabilidade do papel do Estado. Ou seja, qual é a nossa política de energia? Qual é a nossa política de educação? No pós-pandemia, como vai ser a saúde? Estamos precisando de redefinições sobre ciência, tecnologia e inovação. Como vamos refazer as cidades, o transporte público. No Brasil, a herança vem da época da colônia. Herança é algo que todo governo diz que recebe. Então, o atual governo, se reeleito, ou uma outra administração, vai ter anos difíceis. Primeiro porque a inflação, no curto prazo, dá uma certa melhora nos resultados fiscais porque aumenta a arrecadação e você segura, você controla os gastos. O governo no próximo ano vai ter que lidar com questões das reformas... A reforma tributária é um item importante tanto para uma visão mais liberal como para uma visão mais à esquerda. Os benefícios dos servidores públicos, como fazer? E depois tudo isso acaba na evolução da dívida e como os mercados vão sustentar a renovação e a situação da dívida pública brasileira. Além disso, o Brasil não é uma ilha, e o que vier de condições do mundo também acho que será difícil. Ainda está muito incerto devido à situação internacional. Eu acho que, primeiro, uma discussão sobre as metas fiscais que o governo tomará como base. Segundo, o empenho do governo em recuperar os níveis de investimentos públicos. Podem ser investimentos diretos, investimentos através de parcerias público-privadas. São vários mecanismos. Será preciso discutir uma política de investimentos públicos e como será feita. Pobreza você tira basicamente por emprego e renda. É preciso gerar emprego e renda. Já as políticas de fome... entra muito renovar ou expandir as atividades brasileiras. Eu vejo que a iniciativa da merenda escolar, dos programas de alimentação, a questão do Auxílio Brasil... A inflação está corroendo muito esses valores e tem que ver como calibrar isso. Hoje, primeiro seria "horizontalizar" ao máximo o Auxílio Brasil no sentido de abranger o maior número de pessoas. A gente teve uma experiência assim, durante a covid, que foi o auxílio a R$ 600 reais. Isso, no papel, eliminava a extrema pobreza, pelo menos. A merenda escolar, por exemplo, poderia ser não só para a época escolar, mas para o ano inteiro. Mas são políticas de emergência. É, ele vai ter que apagar o fogo, reconstruindo a casa.
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